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Gotas do Carisma #7 Entre as 99: "O deserto é o nosso lugar"

Atualizado: 25 de mar.

“Estar entre as noventa e nove ovelhas é viver a experiência do mútuo amor e da comunhão no Espírito. É o Pastor quem nos une neste lugar. Viver em comunidade implica olhar para o outro e deixar que o outro te olhe — e isso, por vezes, nos faz querer fugir.”


Imagem gerada por IA das ovelhas no deserto

Nosso fundador, Padre Fábio Lima, disse-nos profeticamente certa vez: “O deserto é o nosso lugar”. Num primeiro momento, minha reação foi apenas dizer “amém” e “aleluia”, mas admito que meu coração ficou inquieto. Afinal, por que logo o deserto?

Certamente, em uma missão cujo chamado é “ser voz de Deus no deserto das vidas”, não poderíamos estar em outro lugar. Mas é necessário entender que, no deserto da vida alheia, nós apenas passeamos e visitamos; porém, habitamos no deserto da nossa vida interior, no deserto fraterno e no deserto de Deus. Dói e incomoda pensar nisso, mas faz parte da nossa vocação. Deus me fez compreender que o meu lugar é o deserto; em outras palavras, Ele me mostrou que meu lugar é entre as noventa e nove.

“Quem de vós, tendo cem ovelhas e perdendo uma delas, não deixa as noventa e nove no deserto e vai em busca da que se perdeu, até encontrá-la?” (Lc 15, 4)

Temos o costume — e não está errado — de ler esta passagem e nos colocar no lugar da ovelha que ficou para trás, aquela que o Pastor, com todo amor, busca e traz de volta nos ombros. Mas o Senhor me fez perceber que, embora eu tenha sido muitas vezes a ovelha foragida, o meu lugar agora é ali, no deserto. Parece pesado quando o Evangelho diz que as noventa e nove foram “abandonadas” no deserto, não é mesmo? Afinal, é preciso coragem para deixar um rebanho a ponto de as ovelhas sentirem a ausência do Pastor. Contudo, Jesus sabe que elas não entrariam em desespero ou fugiriam. Por quê? Porque o deserto é um lugar seguro. Pode não parecer, mas é.


O Medo do Convívio e a Fuga


Falando brevemente sobre a ovelha fugitiva: todos temos, por vezes, vontade de sair correndo. As primeiras experiências no deserto assustam. Olhar para todas aquelas ovelhas ao redor pode se tornar entediante, amedrontador ou confuso. Pode gerar conflitos e a sensação de que o Pastor não dá a devida atenção a todos.


“Se existe consolação na vida em Cristo, se existe alento no mútuo amor, se existe comunhão no Espírito, se existe ternura e compaixão, tornai então completa a minha alegria: aspirai à mesma coisa, unidos no mesmo amor; vivei em harmonia, procurando a unidade.” (Fl 2, 1-2)

Estar entre as noventa e nove é viver a experiência do amor mútuo. É o Pastor quem nos une. O Evangelho de São João nos diz que “as ovelhas ouvem a sua voz; ele chama as suas ovelhas uma por uma e as conduz para fora” (Jo 10, 3). Poderíamos ser ovelhas de campos abertos, de outros rebanhos ou até estarmos “livres”, sem um pastor. Mas fomos chamados para o meio das noventa e nove.

Muitas vezes, nós somos o nosso maior empecilho para viver bem o deserto. Viver em comunidade exige olhar para o outro e deixar-se ser visto, e essa vulnerabilidade nos dá vontade de fugir. Estar em grupo quando não estamos bem resolvidos com nossa identidade e potencialidades pode gerar disputas — se não declaradas, ao menos inconscientes. Não saber lidar com o defeito do irmão, comparar-se constantemente ou não admitir a própria inveja prejudica o amor mútuo. A dificuldade com o "outro" nos coloca ora como agressores velados, ora como vítimas.


No deserto - O Chamado para Fora de Si

O que te faz fugir do rebanho? Sua experiência com o Pastor, com as outras ovelhas ou consigo mesmo? Para nos colocar no rebanho, o Pastor nos tira da zona de comodismo. Como diz o Evangelho, Ele nos "conduz para fora". O Senhor não nos tira apenas de uma realidade ferina, mas de nós mesmos — daquilo que moldamos sozinhos em nossa identidade.

Se fugimos do rebanho, é porque não estamos ouvindo com atenção a voz do Pastor. Ele está ali conduzindo, mas talvez estejamos caminhando sozinhos; juntos ao rebanho no corpo, mas distantes no coração. É preciso converter nossa posição e abraçar nossa história de salvação. Se Deus te chamou a um rebanho, entenda: seu lugar não é mais fugindo para ser resgatado. O Senhor nos resgata e acaricia todos os dias, mas isso pode acontecer ali, na unidade. Não precisamos da fuga para nos sentirmos cuidados.


Semelhantes, mas não Iguais


Ao olhar para um rebanho, as ovelhas parecem todas iguais. O lugar onde o Bom Pastor nos colocou nos molda para sermos semelhantes, mas não idênticos. Fomos criados individualmente à imagem e semelhança de Deus. Quando vivemos sob a Sua voz, manifestamos essa imagem de forma única. Contudo, na unidade, quem olha de fora percebe uma harmonia tão profunda que parecemos um só. Se somos formados à imagem daquele que é Um, seremos todos um Nele.

Estar entre as noventa e nove exige entender o nosso processo e o do irmão. Nas diferenças, Deus nos faz um. Sobre o "abandono" que mencionei antes: sabe por que Jesus não teme nos deixar no deserto para buscar a ovelha perdida? Porque Ele confia em nós. Se Deus é fiel, Ele espera a nossa fidelidade. Ele é fiel ao dizer "vou buscar seu irmão e já volto", e espera que tenhamos a fidelidade de aguardar no lugar onde Ele nos plantou.


Descobri que o deserto é o lugar seguro. Se vivemos nele conduzidos pelo Pastor e ouvimos Sua voz, sabemos como caminhar. Já fomos moldados para esse ambiente; por isso, o deserto é mais seguro do que qualquer atalho para onde possamos fugir.

Nosso lugar não é a solidão errante em busca de um novo mestre. Nosso lugar é onde o Pastor nos chama: no meio das noventa e nove, compartilhando alegrias e tristezas, diminuindo para que Ele cresça. As noventa e nove fazem do deserto a sua morada, agindo como a voz do Pastor que resgata e aguardando, em unidade, o Seu retorno.


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"Ser Voz de Deus no deserto das vidas"

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